Zeca Viana faz acusações graves e uma análise crítica da gestão de Pedro Taques

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Quis o destino, e contribuíram as circunstâncias, para que um dos maiores companheiros e aliados de campanha do governador Pedro Taques (PSDB) seja, hoje, um dos maiores críticos de sua gestão.

Recentemente, um colega de Parlamento fez uma crítica indireta ao jeito simples e ao linguajar interiorano do deputado estadual José Antônio Gonçalves Viana, o Zeca Viana, de 58 anos, já em seu segundo mandato pelo PDT. “Eu não ligo, esse é meu jeito”, devolveu Zeca.

“Aqui podem me acusar de tudo, menos de ser omisso”, acrescentou ele, nessa entrevista exclusiva ao MidiaNews, concedida um dia após o deputado ter feito sérias acusações ao atual Governo.

Para Viana, o governador estaria correndo sérios riscos de perder a fama de caçador de corruptos, por conta de esquemas que estariam ocorrendo no seu governo. “São escândalos que logo virão à tona”, disse.

"O Taques veio para moralizar, mas está rodeado por bandidos. Esse povo está pondo ele na lama".

Filho de pais humildes, Zeca Viana nasceu em Ampere, interior do Paraná, e mesmo sendo hoje um empresário rural muito bem-sucedido na região de Primavera do Leste, ele não abre mão de seu jeito simples e despojado, que não leva a si mesmo muito a sério.

“Meu primeiro mandato de deputado foi uma inutilidade”, diz. “Eu era uma voz quase que solitária contra o Governo Silval”.

Mas ele garante que este segundo mandato não vai passar em vão. "Eu sou como uma cobra cascavel, que fica ali quietinha, no canto dela, sem mexer com ninguém. Mas vai mexer com ela, para você ver!”, brinca.

Nesta entrevista, Zeca Viana avalia o primeiro ano de gestão de Pedro Taques, diz porque rompeu com ele no início do mandato, analisa a relação da Assembleia com o governo e conta os bastidores de suas andanças com o então senador, quatro anos antes da eleição, com o objetivo de convencer eleitorado a votar nele para governador.

“O avião que eu comprei para rodar com o Pedro na pré-campanha está quebrado até hoje, no Aeroporto Marechal Rondon, desde o dia em que deu pane com o vice-governador e o Nilson Leitão. Até hoje eu não troquei os motores. Mandei fazer a fuselagem, mas ainda não comprei os motores e as hélices”, disse o deputado, com cara de quem, tão cedo, não vai dar sossego para o governo.

Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – Na semana que passou o senhor usou a tribuna da Assembleia para criticar duramente a gestão de Pedro Taques. O senhor disse, por exemplo, que ele "está rodeado de bandidos”. Poderia explicar?

Zeca Viana -Talvez 'bandido' seja uma expressão muito forte. Mas como eu tenho dificuldade de fazer um discurso, como diz o nosso líder Wilson Santos [deputado estadual do PSDB, líder do governo], com menos palavras chulas, então é o meu jeito de dizer o seguinte: o Pedro não está ouvindo aquelas pessoas que realmente querem o bem dele e do Estado. Há pessoas muito maldosas que estão no staff dele, para quem ele dá mais atenção. Essas pessoas não são confiáveis. No governo já tem um monte de coisas erradas acontecendo – e a gente já está se minuciando para, no momento que for apresentar para a sociedade, faça com toda a segurança. Isso é algo que eu lamento, porque eu acompanhei o Pedro durante quatro anos antes da eleição e sei o que a gente pregava para a sociedade: transparência e honestidade; honestidade e transparência.

O Pedro não é corrupto, eu tenho certeza. Ele jamais teria coragem de apoiar uma corrupção. Mas ele está sendo enganado porque essas pessoas estão fazendo sem o conhecimento dele. Já há varias ações criminosas sendo praticadas pela equipe do governo, que só faltam ser denunciadas. Algumas coisas inclusive o Gaeco já está investigando – e tem outras que é preciso apurar um pouco mais. E isso é lamentável. Porque para o Pedro, que é um moralista, qualquer "espirrinho" levará por água abaixo todo aquele discurso maravilhoso dele. Por isso que eu digo que ele está rodeado de bandidos. São pessoas que visam ao bem-estar delas próprias e não estão nem aí para o Estado. Claro, a gente sabe a complexidade que é um governo. A gente sabe o tamanho que é o Estado e que você não vai ter uma 'unanimidade' de pessoas sérias contigo. Mas as pessoas mais próximas, elas precisam, sim, ser do perfil do gestor, ter a mesma retidão. Se o gestor for porcaria, eles vão entrar no mar de lama também, como era na gestão passada, mas o Pedro não é isso – e infelizmente essas pessoas enganam o Pedro.

MidiaNews -É uma acusação grave. Quem seriam essas pessoas?

Zeca Viana -Os nomes delas vão se tornar públicos, logo, porque nós estamos juntando documentos, juntando provas, e vamos entregar tudo para o Ministério Público, para os órgãos competentes, que vão tomar as providências cabíveis. Porque a Assembleia Legislativa deveria ser um órgão fiscalizador, mas como eu sempre falo, eu brinco com meus colegas, nós somos um bando de frouxos. Porque nunca vamos para o enfrentamento, não vamos, isso é uma realidade. Aqui têm dois ou três que topam ir até o final, mas o resto sempre recua.

A Assembleia não está cumprindo seu papel de fiscalização, como não também não cumpriu na gestão passada. E justamente pelo comprometimento que os deputados têm com o Executivo. Você tem lá uma meia-dúzia de servidores que você indicou e aí fica comprometido com o Executivo, principalmente pela forma como o Pedro conduz as coisas, com mão de ferro. Então, se você faz qualquer crítica ao governo, uma crítica saudável, construtiva, ele já não admite. A primeira coisa que ele faz, como já fez, é mandar os teus indicados embora. Ou já manda um recadinho para o cara, dizendo "ou você é da base ou já cai fora". Isso é claro que intimida. Intimida e cala as pessoas. E isso é prejudicial para a sociedade, para Mato Grosso.

MidiaNews -Em pronunciamento recente o senhor disse que já haveria "esquemas criminosos" dentro do atual governo. Em que setores, ou secretarias, eles estariam atuando?

Zeca Viana -Naquele momento eu citei, por exemplo, as empreiteiras. As empreiteiras que mais saquearam o Estado na Gestão Silval, são as que estão fazendo as obras na gestão do Pedro. Essas empreiteiras eram bandidas até dia 31 de dezembro de 2014 e, no dia 1º de janeiro de 2015, amanheceram todas boazinhas? Se eu fui bandido num governo, eu não vou virar santo no outro. Pode haver um reajuste de contrato, de prazos e valores, mas santo eu não vou virar, o esquema continua. Nós temos empresas cheias de indícios de superfaturamento, que estão aí, na linha de frente das obras do Estado.

Outra coisa: no Detran, a gente soube o escândalo que era o Detran, aquela empresa do setor de vistoria, a FDL, que repassava de 18% a 20% ao erário público e distribuía 80% para as ratazanas do Estado – essa mesma empresa renovou o contrato e continua prestando serviço. Essa empresa virou santinha da noite para o dia? Então, não houve nenhum tipo de restrição, ninguém que fizesse uma imposição, que dissesse "nós vamos começar e terminar esse governo de um jeito sério. Por isso eu vejo com bastante preocupação o rumo desse governo. Essas empresas podem acabar afundando o perfil moralista do governador Pedro Taques.

MidiaNews -Os supostos "esquemas" aos quais o senhor se refere seriam os mesmos supostamente levantados na gestão anterior?

Zeca Viana -Não os esquemas escancarados como da Gestão Silval, porque ali não tinha mando. Mas já está havendo esquemas, sim, tanto em relação a empreiteiras, quanto em outros setores do governo. Ontem mesmo eu falei na tribuna, que o governo desabilitou outras empresas eestá gastandoR$ 143 milhões de óleo diesel no Posto Marmeleiro, sem ter uma licitação clara. É uma questão séria e vai ser investigada. Eu não tenho dúvida de que vai ser investigada. Tem uma outra situação de R$ 4 milhões e pouco também, que o Gaeco já está investigando – e outras que eu vou entregar para investigação. São coisas que não deveriam acontecer no governo do Pedro. Não deveriam.

MidiaNews -Que avaliação, então, o senhor faz do primeiro ano da Gestão Taques?

Zeca Viana -Nos setores de Saúde e Educação, que a gente bateu tanto na campanha, não mudou nada. Aliás, pelo contrário, pelo relato que eu tenho de médicos, a Saúde piorou. Ontem [quinta-feira, 18] mesmo eu recebi a ligação de um dono de hospital de Primavera do Leste e ele me disse que vai fechar as UTI, porque o governo não está repassando recursos e eles não estão aguentando carregar, por tanto tempo, um custo que é do Estado. Remédios, você não vê nas farmácias. O escândalo da judicialização da Saúde, que nós denunciamos por tanto tempo e falamos que íamos resolver, ontem eu tive que denunciar na tribuna. Por que é que o Pedro Taques não começou a fiscalizar os hospitais? Que sempre que um advogado ou qualquer outra pessoa vai fazer um orçamento de cirurgia, e o hospitalsabe que é para judicializar uma ação contra o Estado, ele cobra um absurdo. Se o preço normal é R$ 10 mil, ele cobra R$ 400 mil, ou mais, saqueando o Estado.

E hoje o Pedro Taques criou uma comissão para contrapor a necessidade do doente, o que é um verdadeiro absurdo. Se um ser humano busca a Justiça para conseguir um atendimento é porque ele já está no extremo. Ele não tem condições de fazer o tratamento e precisa, sim, do apoio da Justiça. Aí ele vem para Cuiabá e o governo ignora, contesta a decisão judicial e acha que o cara está ali brincando. Por que o governador não criou uma comissão para ir trabalhar nesses hospitais e para discutir os preços das cirurgias e das internações? "Ah, você cobra R$ 15 mil a cirurgia de vesícula? Então vai fazer por R$ 10 mil e eu vou direcionar os pacientes para cá". Isso é fazer uma gestão eficiente. E não dizer que o paciente não precisa e deixa o cara morrer. É um absurdo.

Já a Educação você vê o caos em que está – e eu não acredito que a Secretaria de Educação consiga reverter a situação nos próximos 30 dias. Eu inclusive conversei com o líder Wilson Santos sobre isso. Os alunos fora da sala de aula. Os professores todos perdidos, não sabem nem aonde vão dar aula. Quer dizer, não foi feita uma organização antecipada, no final do ano passado. Não foi feita a atribuição de aulas, que tem que ser feita no ano anterior – e não esperar começar o ano letivo para depois tentar consertar.Atéaqui dentro de Cuiabá está faltando fazer isso. E o governador é professor e filho de professor e pregou muito na campanha o que iria fazer, seus discursos estão todos gravados. Ele dizia que educação é trabalho para 20 anos, não é como engordar gado, que precisa só de três, quatro anos. E infelizmente a coisa está indo para esse rumo.

MidiaNews -Como o senhor se sente, tendo sido um dos principais apoiadores do governador Pedro Taques durante a campanha?

Zeca Viana -Decepcionado. E muito. Eu tenho um certo conforto porque a sociedade entendeu o meu posicionamento lá no início do governo, quando eu optei por ficar com os meus companheiros, com a população, e não aderi às maluquices dele. Isso inclusive me deu uma credibilidade muito grande perante a sociedade. Nós elegemos um governador, mas eu não o elegi para ficar pendurado nele. Foi para defender as causa do Estado e da sociedade. Mas eu me decepciono muito, porque não é o que nós pregávamos antes da eleição. Veja a questão da Sema. Lá no Araguaia a gente falava: "o Estado não pode ser atrapalhador, nós temos que descentralizar a Sema". E hoje a Sema trava tudo, está tudo travado lá. E você vê o que acontece no Intermat, simplesmente ligaram para a Luciane [Bezerra, ex-presidente da autarquia], dizendo: "Atenda um delegado aí", e a Lucianeperguntou: "Tudo bem, mas o que ele vem fazer aqui, quem é ele?", e responderam: "Não, é o futuro presidente, que vai ficar no teu lugar". Isso lá é forma de agir?

Será que ele vai fazer um governo só de polícia? A polícia tem que fazer a função dela, enquanto o governo faz a função dele. O Pedro não vai se sustentar, se nós tivermos uma Assembleia de deputados corajosos, para ir para um enfrentamento desse. E o único Poder que pode vetar esses exageros é a Assembleia. Eu alertei os colegas deputados ontem, sobre isso. Essa Casa tem o dever de segurar essa arquitetura que o Pedro Taques está montando para que ele seja o imperador que fica lá, absoluto, enquanto todo mundo fica debaixo, sendo mandado.

MidiaNews -Osenhor disse que ele faz um "governo de polícia"?

Zeca Viana -Mas você está vendo isso. É claro que esse povo do governo anterior tinha mesmo que ir para a cadeia. No meu mandato passado eu já dizia do Silval: "se a Justiça for séria, esse homem tem que sair algemado do Palácio". Porque a gente já sabia dos exageros e eu era uma voz quase que isolada aqui na Assembleia, era eu, a Luciane… e a gente já sabia disso. Nesse quesito, o Pedro está corretíssimo. Tem que botar na cadeia mesmo. Saquearam o Estado, sem piedade. Agora, governar não é prender gente. Tem que deixar a polícia trabalhando, o MP trabalhando, nas funções que são deles, e o governador tem que cuidar do Estado. Mas ele só foca nisso. Ele está vigiando os passos de todo mundo que se diz meio descontente com ele, ele fica monitorando tudo.

MidiaNews -O senhor se sente monitorado?

Zeca Viana -Mas é claro. E eu quero mais é que eles me grampeiem, coloquem gravador para tudo quanto é lado. Eles já fizeram isso. Aquela montagem que eles fizeram contra mim, foi justamente para quebrar os meus sigilos. Eles reviraram a minha vida e não acharam nada. Então eu quero mais é que me grampeiem.[Em março de 2015, uma denúncia anônima chegou àCasaCivil dando conta de que o deputadoteria contratado um pistoleiro para matar o secretário-chefe Paulo Taques e sua esposa. Um inquérito policial foi aberto e depois arquivado, a pedido do próprio governo].

MidiaNews -Mas o senhor não concorda que a atual gestão está mudando conceitos, como no combate à corrupção?

Zeca Viana -Não concordo. Na campanha, a gente não deveria terfalado que iria fazer a diferença. Tem que ser diferente, de fato, para fazer a diferença. É por esse motivo que eu faço críticas. O Pedro Taques foi eleito para fazer diferença, está fazendo, nesse quesito de prender quem tinha que estar preso mesmo, masa gestão não está acontecendo.

O que eu vejo nos órgãos é um clima de medo, de terror,um funcionário não assina um documento autorizando qualquer coisa que seja, porque tem medo de ir preso. Tudo tem que passar pela PGE. E a própria PGE vai ser alvo de investigação, logo, logo. Como é que se administra dessa forma, com todos os órgãos engessados? Então é o seguinte: um grupo que está no staff do governo faz o que quer, enquanto o resto do Estado fica à deriva.O marketing fala de "Estado de Transformação", só não falou que tipo de transformação que ele quer.

MidiaNews -Por que o senhor diz que a PGE será alvo de investigação?

Zeca Viana -Nós estamos levantando ainda. Mas o "Patryckzinho" [Patryck de Araújo Ayala, procurador-geral do Estado] vai ter que responder a uma situação lá. Os caras são muito concentradores e acham que as coisas não vazam. Mas você nunca está sozinho. Não adianta você querer fazer certas coisas, porque as paredes têm ouvidos. Então, paraque fazer a coisa errada? E a pessoa faz sabendo, como qualquer um outro que está no governo, que uma hora a coisa acaba vazando. E tem uma série de coisas desnecessárias, que acontecem ali e vem da falta de confiança nos servidores de outros órgãos. Eles não podem tomar qualquer decisão se não for através da PGE.

MidiaNews -Contrariando o que o senhor está dizendo, pesquisas recentes dão ao governador Pedro Taques uma grande aprovação, em torno de70%.

Zeca Viana -Mas é claro. O que hoje o brasileiro mais quer, está em primeiro lugar em todas as pesquisas, é o combate à corrupção. E isso é muito justo, basta ver a Operação Lava Jato, o Petrolão. Realmente o nosso país estava podre. Então o Pedro está nesse vácuo. Agora, na hora em que a sociedade começar a ver que necessita de algo mais, ele vai sentir alguma dificuldade. Olha, o Pedro é um homem super inteligente, ele é inteligente até demais. Mas ele, sendo uma pessoa conhecedora das leis, ele jamais poderia pecar infringindo as leis. E nós já temos muitas ações dele em que ele infringiu claramente a lei.

MidiaNews -Por exemplo?

Zeca Viana -A lei da Reforma Administrativa, por exemplo, na qual ele criou o conselho da Sefaz, dizendo que as vagas deveriam ser igualitárias entre as três categorias [de servidores]. Ele nomeou quatro de duas categorias e deixou uma de fora. Ora, foi a lei que ele mesmo criou. Eu entrei com um requerimento para sustar aquele ato. Nessas questões de licitações, também, que estão aparecendo: ele sabe que está errado. Porque ele é um conhecedor da lei.

Se fosse um leigo, que errasse por falta de conhecimento, tudo bem. Mas ele não. Outra coisa: ele, que quando senador combateu tanto a mania dos gestores de governar por decreto, já temnovecentos e poucos decretos assinados. Ele não tem a paciência de mandar um projeto de lei para a Assembleia, para os deputados debaterem, discutirem, e está optando por governar por decreto. O que nós vamos ter que fazer? Vamos ter que fazer nossos "decretos" aqui sustando os dele. Eu alertei os outros deputados lá na Reforma Administrativa, quandoem um parágrafo ele praticamente diz que pode governar por decreto. Então, gente, vamos fechar a Assembleia, ir para casa e cuidar do nosso negócio e deixar ele governar.

MidiaNews -Que avaliação o senhor faz da atuação da Assembleia, sobretudo nesse papel de fiscalização do governo?

Zeca Viana -Eu acho que muitos deputados têm medo – e o Pedro sabe jogar com isso. Mas eu tenho falado com os meus colegas e sido bem franco: "amigo, se você está com o teu dedinho dentro da lama, esqueça que você vai ser protegido". Eu conheço o perfil do Pedro – e ele está correto nisso: seja ou não companheiro, se você fez algo errado, vai tudo para a vala comum. Então, é se preparar para se defender, porque vem chumbo grosso em cima, é só uma questão de tempo.Agora, se o deputado não mostrar que tem um posicionamento, que as coisas para funcionar têm que ter um equilíbrio, aí o caminho fica mais aberto para ele.

Eu falei desde o início:houve uma interferência muito grande do Executivo aqui dentro na eleição da Mesa e foi o presidente [deputado Guilherme Maluf] quem abriu esse espaço. Ele não teve a coragem de dizer: "não, aqui é uma Casa independente, aqui há mais 24 deputados e uma instituição que tem que ser respeitada". O presidente não fez isso e hoje ele não tem mais poderes para mudar esse quadro. Hoje, se o Pedro assoviar lá, o presidente tem que dançar. E isso é preocupante. porque a Assembleia não tem qualquer autonomia. Então o governo fica nessa estratégia de levar os deputados na base da ameaça, eles se sentem desprotegidos pelo presidente da Casa e dá no que dá.

MidiaNews -Há nos bastidores a notícia de que alguns deputados já estariam se unindo em um bloco para fazer essa oposição ao governo…

Zeca Viana -Há de fato uma insatisfação, mas é uma insatisfação interna, somente aqui entre a gente. Eu costumo brincar com meus colegas aqui na Assembleia: nós somos um bando frouxos! Falta a coragem de mostrar a cara e expor para a sociedade, ou para a mídia, ou para o próprio interessado, que é o Executivo. Falta essa coragem. E assim que os colegas tiverem essa coragem, a coisa vai mudar. Eu acho que já está chegando no limite da tolerância. Pelo menos de uns oito ou dez deputados.

MidiaNews -Nesse contexto, o que esperar da eleição da próxima Mesa Diretora?

Zeca Viana -Se for para a reeleição, opresidente Guilherme Maluf vai ter muitadificuldade para se reeleger, porque há muita insatisfação muito grande. Essa Mesa que aí está, eu acredito que seja impossível continuar. Os próprios deputados não querem, justamente por isso que nós falamos. O presidente não agiu da forma que deveria ter agido. Ele é presidente da Assembleia Legislativa, do Poder Legislativo do Estado de Mato Grosso. Ele se esqueceu disso e se esqueceu dos deputados. "Cada um se vire por conta". E não é por aí. Acho que para ele próprio, presidente, essa gestão está sendo péssima. A Assembleia caminha para ser um Poder de joelhos. Tanto que a cobrança da sociedade tem sido grande.

E eu não estou falando nada de mais. Não se trata de ser contra o governo. Trata-se apenas de cobrar e fiscalizar. Mas o governo acha que um deputado, quando vai para a tribuna para apontar um errinho que seja, ele já acha que você é contra o governo. Recentemente um deputado do PSD, que é o partido onde o vice-governador [Carlos Fávaro] se filiou, foi reclamar da administração em uma reunião na AMM e já recebeu umrecado: "ou você é governo, ou você é contra". Ou seja, o deputado e os prefeitos já estavam no partido quando o vice chegou e tiveram que ouvir isso.Então isso mostra que é uma ditadura, dizendo: "ou você fala minha língua, ou então cai fora.". Eu achei isso um absurdo. Porque eu gosto do Carlão, ele é um cara bacana, mas se ele seguir essa linha, a liderança dele vai por água abaixo. Porque liderança você não impõe, você conquista. O Emanuel Pinheiro (PR), logo no início, ele tinha umas 15 indicações no governo, foi fazer uma crítica e, no dia seguinte, os 15 foram demitidos.

MidiaNews -O senhor já indicou alguém para trabalhar no Governo Taques?

Zeca Viana -Eu fiquei os quatro anos do Governo Silval sem ter um cargo, e quero passar os quatro anos desse governo sem ter um cargo de minha responsabilidade. Porque quando eu indico um funcionário, eu me sinto responsável por ele. E se a indicação é aceita e o funcionário não cumprir a função que exige aquele cargo, o chefe dele vai dizer: “o cara não faz nada, mas eu não posso mandar embora porque é uma indicação do Zeca”. Então eu procuro evitar esse tipo de coisa. Além disso, isso me dá mais liberdade de mostrar os meus pensamentos, as minhas ideias.

MidiaNews -Que nota o senhor daria para o Governo Taques, até aqui.

Zeca Viana -De zero a dez? Bem, eu daria quatro. É uma boa nota. Eu dei dois para o Silval, quando um repórter me perguntou, lá no Araguaia. Ele me comenou: “não é muito pouco, deputado?”. E eu respondi: “acho até que é demais” (risos). Mas no caso do Taques eu dou quatro porque eu ainda acredito no governo dele. Claro, tem umas coisas que precisam mudar e ele precisa se adequar, senão não vai dar certo.

Mas eu acho difícil ele mudar. Porque é como eu digo aqui, ele não tem marcha ré. Nunca dá um passinho para trás. Só que não tem jeito, você estando numa missão tão complexa como é a de um governador, você tem que saber avançar e tem que saber recuar também.

MidiaNews -O governador disse que não conversa com o senhor desde o rompimento…

Zeca Viana -Em janeiro de 2015, sim, é verdade. Eu o cumprimentei umas duas vezes. Eu não fui ao Palácio, porque eu sei que não vou ser bem recebido e também não vou a secretarias, só fui uma vez na Sinfra.

MidiaNews -Qual o seu sentimento em relação a isso, já que o senhor participou da campanha e ajudou o governador a ser eleito?

Zeca Viana -Eu não tenho problema com isso. Eu recebo as demandas dos municípios e as encaminho bonitinho para a Casa Civil, para as secretarias, e eles têm um prazo para me dar resposta. Eles me dando a resposta eu simplesmente repasso para a cidade A ou B – e é o governo quem diz se vai atender ou não a demanda e o porque. Então, o meu papel eu fiz. Eu não fico pentelhando secretário. De vez em quando eu ligo para o secretário Marcelo Duarte (Infraestrutura), que é ligado com construção de pontes, estradas, e ele tem me ouvido. Mas é só nos casos que a ponte tem que ser consertada mesmo, quando não tem mais jeito. Até porque também é nosso dever mostrar para o governo onde está tendo problemas, para ele ir lá e consertar.

MidiaNews -O senhor acredita que o governo está tendo a percepção dos problemas do Interior do estado, está atendendo o cidadão dos lugares mais distantes da Capital?

Zeca Viana -Não, não está atendendo. É algo que falta. O governador é inteligente, então ele sabe o que falta e o que deve ser feito. Mas muitas demandas não chegam até ele. Existe uma barreira em torno dele, que impede isso. Só que ele precisa ouvir a voz das ruas.

MidiaNews -Depois que houve o rompimento, o senhor nunca teve vontade de falar com o governador?

Zeca Viana -Têm horas que eu fico com vontade, sim. De falar para ele o que está acontecendo. Mas, fazer o que? Eu não sou o salvador da Pátria e acho que já me sinto confortável na minha posição. Claro, me sinto inútil, pois meu propósito era ajudar muito mais, mas, fazer o que? A opção foi essa, tanto minha, quanto dele…

MidiaNews -Foi um rompimento traumático para o senhor?

Zeca Viana -O rompimento foi exatamente pela questão de cargos do interior. O Pedro, por causa da eleição da Mesa da Assembleia, começou a ceder cargos para os adversários. Eu acompanhava cada demanda.

MidiaNews -Não teve a ver com o deputado estadual Baiano Filho (PMDB), que teria condicionado o seu apoio à chapa de Guilherme Maluf se conseguisse cargos no Executivo?

Zeca Viana -O Araguaia foi um caso específico, sim, porque o Baiano havia realmente prometido cargo para todo mundo lá – e agora deve ter cumprido, porque ele está do lado do governo. Mas eu falei: “Pedro, isso não pode. Eu não admito que isso aconteça. Porque lá tem o fulano que nos ajudou, o sicrano que vestiu nossa camisa e suou nos defendendo e nós não podemos deixar nossos companheiros no meio do caminho”. Mas é preciso que se entenda: eu não fiz isso como parlamentar. A pressão que eu recebia era como presidente estadual do PDT. O pessoal do PDT tinha todo o direito de cobrar mesmo. E na condição de presidente do partido eu não podia virar as costas para os meus companheiros, senão como é que eu vou conduzir um partido?

MidiaNews -Recentemente o senhor disse na tribuna da AL que estaria sacrificado financeiramente pelo tanto que gastou na campanha para governador…

Zeca Viana -O que eu disse foi o seguinte: nenhum parlamentar, nenhum deputado desta Casa fez mais do que eu fiz para eleger o Pedro Taques – inclusive financeiramente. E nisso eu estou coberto de razão e até provo. Aquilo que a gente falava durante a campanha, que a gente não joga sujeira debaixo do tapete, esse é meu perfil, eu não jogo sujeira para debaixo do tapete mesmo. Independentemente se a gente tivesse junto ou não, a minha conduta nessa Casa ia ser a mesma. Talvez não seria tão áspera, como tem sido, mas eu não ia admitir os erros da mesma forma.

MidiaNews -Mas quanto, afinal, o senhor gastou na campanha?

Zeca Viana -Não dá para calcular. Nós rodamos o Estado, o Pedro e eu, durante quatro anos antes da eleição, quando ele era senador, já com um projeto de governo. Praticamente todo final de semana a gente viajava – e sempre no meu avião. Aliás, eu comprei um avião para isso, modelo Baron. Porque logo no início eu vi que táxi aéreo ficava muito caro. Então eu comprei um avião. Como eu era presidente do PDT e ele vice-presidente, nós tínhamos que viajar o Estado, ampliando o partido e ele levando as informações do Senado, prestando contas e tal. Ele fazia uma explanação bonita. E nós não queríamos ficar devendo favor a ninguém, então eu paga tudo, do avião ao combustível. Eu nunca recebi um litro de combustível de alguém.

Mas veja bem. Eu não estou cobrando nada, ou alegando isso para ganhar alguma coisa. Nós tínhamos um objetivo na época – que era eleger o Pedro a governador – e hoje eu sou um cara tranquilo em relação a isso, porque nós fomos vitoriosos. O que aconteceu depois foi depois. Mas o nosso objetivo nós atingimos e com muito sucesso. Quase sempre viajava só eu e o Pedro, dois praticamente desconhecidos no meio político, porque o Pivetta [Otaviano Pivetta, PDT, prefeito de Lucas do Rio Verde], que estava conosco, quase sempre tinha outros afazeres. Então minha consciência está tranquila, pelo dever cumprido.

MidiaNews -E na campanha, o senhor ajudou?

Zeca Viana -Eu nunca recebi um real da chapa majoritária, para a minha campanha. Por outro lado, 100% do meu material estava vinculado ao Pedro. Eu dizia: “não adianta vocês votarem em mim, se não votarem no Pedro”. Porque nosso objetivo era eleger o Pedro Taques. Eu mesmo não queria ser candidato à reeleição e só fui candidato para não prejudicar o projeto maior.

MidiaNews -O que é preciso para que o senhor e Pedro Taques se reconciliem?

Zeca Viana -Eu não teria dificuldade nenhuma de conversar com ele, numa boa. O problema é que aquela relação de credibilidade acabou, não tem mais conserto. É como um cristal, que depois que trinca, perde o valor. Então eu acho que a gente vai se dar muito bem assim: ele lá e eu aqui. Mas olha, eu não tenho o Pedro como meu inimigo. E não tenho um pingo de mágoa dele. Tem horas que eu começo a pensar e tenho pena do Pedro. Sabe o que é você sentir pena de uma pessoa? Principalmente quando eu vejo alguma situação que saiu na mídia e tal.

“Puxa vida, mas ele está precisando de uma voz amiga e não tem”. Porque eu sempre falei duro com ele – e ele sabe disso. Mas eu sempre fui verdadeiro. Eu precisava fazer com que ele entendesse que naquele sentido ele estava errado. E ele não tem isso. Ele não tem ninguém que chegue e conteste uma situação ou outra com ele – por isso é que a pessoa acaba errando muito nas decisões. Porque se você só dizer “amém”, você não está sendo companheiro, você está sendo puxa-saco!