Bem instruídos e vindos de famílias ricas, os atiradores que mataram 20 reféns em um café de Bangladesh desafiam o estereótipo cada vez mais desatualizado de que os jihadistas vêm de famílias pobres e abraçam o radicalismo nas madraças (escolas islâmicas).
Seis jovens foram mortos na semana passada após um cerco que durou a noite toda num café, tomado pelo grupo Estado Islâmico em Daca, capital de Bangladesh.
Um deles pode ter sido um espectador inocente, mas entre os outros cinco há um formado na melhor universidade particular de Bangladesh, um aluno de 18 anos de uma escola de elite, e o filho de um líder de um partido político.
Com o foco dos grupos terroristas como o EI no recrutamento de jovens de classe média, os esforços do governo para erradicar o extremismo se tornam cada vez mais complicados.
“Estes são jovens muito instruídos e de famílias abastadas,” disse o ministro do Interior Asaduzzaman Khan à AFP. Quando perguntado sobre por que estes homens se tornaram jihadistas, Khan respondeu: “Está na moda.”
Embora o governo de Bangladesh continue a negar a presença do EI no país, o grupo reivindicou o ataque e sua agência associada de notícias, Amaq, publicou fotos dos cinco atiradores com armas.
De forma similar, o governo do Paquistão também nega que a rede jihadista tenha uma presença formal em seu país.
No entanto, um oficial de segurança paquistanês disse recentemente à AFP que autoridades locais haviam descoberto diversas células de recrutamento do EI com membros com características demográficas semelhantes às dos jovens de Bangladesh.
Taj Hashmi, cidadão de Bangladesh que dá aulas de estudos de segurança na Universidade Austin Peay State nos Estados Unidos, destacou que muitos terroristas sauditas envolvidos no atentado de 11 de setembro também eram de famílias ricas.
Ele afirma também que a juventude de classe média tem oferecido soldados a grupos terroristas islâmicos desde muito antes do crescimento do EI.
“Pessoas marginalizadas e irritadas, provenientes dos escalões mais elevados da sociedade têm preenchido fileiras de terroristas islâmicos há cerca de 30 anos,” ele diz.
Até o momento as autoridades de Bangladesh divulgaram apenas nomes codificados dos terroristas envolvidos no ataque ao café após interrogarem um atirador capturado vivo, mas liberaram fotos de seus cadáveres ensanguentados.
Os amigos de um deles confirmaram a sua identidade. Trata-se de Nibras Islam, de 22 anos, que estava estudando no campus malaio da Universidade australiana Monash antes de desaparecer em janeiro neste ano.
Um colega de sala afirmou que Nibras era um aluno popular.
“Ele era um bom atleta e todos o admiravam,” disse o amigo à AFP, sob condição de anonimato.
Após sair da instituição Nibras foi à Universidade North South (NSU) em Daca, Bangladesh, uma universidade particular que se tornou famosa quando um antigo aluno tentou explodir uma bomba no Federal Reserve em Nova Iorque, em 2012.
No início de 2013 sete estudantes da NSU esfaquearam o blogueiro ateu Ahmed Rajib Haider até a morte, iniciando uma campanha de assassinatos de ativistas. Em seu julgamento os promotores afirmaram que os estudantes haviam sido radicalizados por meio da Internet.
Outro dos terroristas do café foi identificado por diversas fontes como Mir Saameh Mubasheer, que deveria iniciar seus estudos avançados na Scholastica, uma escola de inglês de elite, mas desapareceu em fevereiro.
Seu pai, Mir Hayat Kabir, disse ao jornal Prothom Alo que temia que seu filho, de 18 anos, tivesse sofrido uma lavagem cerebral.
“Eu senti no meu coração que ele estava sob o feitiço de alguém. Nós fomos bons pais, mas eles o tiraram da nossa casa,” disse ele.
Um terceiro terrorista foi identificado como Rohan Imtiaz, que supostamente também iniciou os estudos na Universidade Monash, na Malásia, após sair da Scholastica, escola onde sua mãe leciona.
Seu pai, Imtiaz Khan Babul, é um ex-secretário para questões relativas à juventude do partido Awami League, atualmente no poder. Ele fez um boletim de ocorrência quando seu filho desapareceu em janeiro.
A Universidade Monash afirmou estar ciente da informação de que alguns dos terroristas estudaram no campus da Malásia, mas acrescentou em uma declaração que “não recebeu, nem viu, qualquer confirmação oficial” das identidades dos mesmos.
Apenas um dos cinco terroristas frequentou uma madraça, o filho de um operário supostamente chamado Khairul Islam Payel.
Alguns analistas atribuem o aumento do extremismo na região do sudeste asiático às pregações de clérigos radicais treinados pelos sauditas nas madraças, seminários religiosos que costumam ser a única alternativa de educação para crianças de famílias pobres.
Mas Mubashar Hasan, um especialista em Islã político na Universidade de Artes Liberais de Daca, classificou a hipótese como ilusória.
“Muitos supostos especialistas de Bangladesh têm culpado apenas as madraças pelo terrorismo,” disse Hasan.
“Muitas agências e governos estrangeiros investiram milhões em projetos para reformar e modernizar a educação nas madraças… O que eles irão reformar agora? As universidades liberais e escolas inglesas cujos currículos são baseados nas ideias ocidentais?”
AFP



















