Não há fórmula infalível para detectar tendência suicida

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Enquanto os investigadores buscam respostas sobre o motivo que levou o jovem copiloto alemão Andreas Lubitz a derrubar por vontade própria um avião com 150 pessoas a bordo, pilotos e psicólogos alertam que não há uma fórmula infalível para evitar acidentes semelhantes.

O Airbus A320 da Germanwings, filial de baixo custo da Lufthansa, se chocou contra os alpes franceses depois de Andreas trancar a porta da cabine – deixando o piloto que havia ido ao banheiro do lado de fora -, assumir o controle da aeronave e acionar o botão de descida.

Segundo a procuradoria alemã, o copiloto deveria estar em licença médica no dia da tragédia. Nesta sexta-feira foram encontrados atestados na casa onde ele morava. As autoridades, no entanto, não informaram a doença que gerou a necessidade do afastamento do trabalho.

Já o jornal alemão Bild afirmou que Andreas Lubitz recebeu tratamento psiquiátrico por um "grave episódio depressivo".

Falta de indícios

Andreas começou como comissário de bordo no grupo Lufthansa e trabalhava como copiloto desde setembro de 2013. Segundo o porta-voz da empresa, ele sempre foi considerado um profissional exemplar.

Professor de Psiquiatria da Universidade René Descartes de Paris, Bernard Granger, explica que muitas pessoas que cometem suicídio apresentam antes "um comportamento perfeitamente normal"

"Geralmente nada permite prever. Muitos suicídios são improvisados, imprevisíveis. Respondem a impulsos", diz o especialista.

Granger explica ainda que uma pessoa deprimida que decidiu pelo suicídio sente "uma espécie de alívio antecipado" e por isso se comporta de maneira tão adversa ao que vai acontecer, adotando a atitude aparentemente normal.

Teste psicológico

A Icao (Organização da Aviação Civil Internacional) – entidade ligada a ONU (Organização das Nações Unidas) que define as normas mundiais da aviação – recomenda que alguém com depressão não pilote um avião. Mas também afirma em seu Manual de Medicina de Aviação Civil que testes psicológicos de membros de tripulação “raramente têm valor” e não são “confiáveis” na previsão de transtornos mentais.

Analistas e os próprios pilotos concordam que os testes psicológicos das empresas não são eficientes.

"As pessoas ficam com medo de não poderem retomar seus postos de trabalho", afirma Gail Saltz, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova York sobre os casos de depressão em que há necessidade de afastamento do trabalho.

Um capitão experiente de uma companhia aérea asiática ainda acrescenta: "Eles perguntam sobre a sua saúde mental, sobre eventos que possam afetá-lo psicologicamente, mas quem por vontade própria admite qualquer coisa que possa levar a uma suspensão de sua licença? Eu não faria isso. Preciso do meu emprego".

Os pilotos são incentivados a avaliar os colegas durante os voos e sessões de treinamento em simulador, e falar abertamente se notaram quaisquer potenciais problemas, disse um comandante de um A320 de uma companhia asiática. Mas ele acrescentou que essa é uma questão delicada.

"Você quer trabalhar em um lugar onde os seus colegas ficam passando informações sobre você? É por isso que isso raramente acontece", diz. "Todo mundo tem problemas e alguns lidam com isso melhor do que outros. Nem todo mundo vai lidar com isso espatifando um avião. Isso é uma reação extrema, e ninguém pode prever."

Acidentes
O especialista em medicina aeronáutica David Powell, da Nova Zelândia, comentou que foram relacionados apenas dez acidentes aéreos envolvendo questões médicas em um estudo do Icao sobre acidentes em todo o mundo ao longo de 20 anos.

"Você poderia garantir de forma confiável que nunca haverá um piloto que, de repente, deliberadamente, derrube um avião?" disse ele. "Os pilotos são um grupo altamente selecionado e amplamente avaliado, mas quem pode prever totalmente o comportamento dos seres humanos?"

Várias companhias aéreas estão respondendo ao problema com a exigência de que um segundo membro da tripulação fique na cabine do piloto todo o tempo – medida que já é obrigatória nos Estados Unidos.

"Nunca deixe uma pessoa sozinha. Essa é provavelmente a técnica mais eficaz de prevenção do suicídio que existe", disse Tony Catanese, um psicólogo clínico em Melbourne, Austrália.