Lucro com possível fraude em compra de respiradores poderia ser de 16 milhões, diz delegado

Segundo delegado Rodrigo Schneider em entrevista ao Bom Dia SC, empresa não tinha intenção de entregar produto contratado e lucro poderia ser de R$ 16 milhões.

Sede da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (DEIC), em São José, Florianópolis, onde alguns dos investigados foram ouvidos — Foto: Reprodução

O delegado da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), Rodrigo Schneider, afirmou na manhã desta terça-feira (12) que o crime de lavagem de dinheiro está entre os pontos da investigação que apuram uma suposta fraude na compra de 200 respiradores por R$ 33 milhões pelo governo catarinense e que resultou na Operação O2. O delegado acredita que a empresa não tinha intenção de entregar os equipamentos contratados e existe a suspeita que o grupo criminoso teria atuado para lucrar pelo menos R$ 16 milhões em cima da compra dos respiradores. Em entrevista ao Bom Dia Santa Catarina da NSC TV, o delegado disse ainda que após a chegada do respiradores, a qualidade deles também vai ser verificada.

“Leva a crer que houve uma sobrepreço na contratação. Os indicativos são de que talvez empresa nunca tivesse a intenção de entregar o primeiro equipamento, mas sim o segundo equipamento que sai o mais barato, daria lucro que a gente apurou líquido de 100%, R$ 16 milhões. Com isso várias pessoas podem lucrar, não só os empresários que participaram, mas agentes públicos tanto de Santa Catarina como os do Rio de Janeiro também”, disse o delegado.

Com a suspeita de lavagem, a polícia procura o caminho do dinheiro para saber por quais contas poderia ter sido “pulverizado”. Ainda segundo o delegado, a força-tarefa montada para investigar a compra está trabalhando para que o quanto antes o dinheiro possa ser devolvido ao estado.

O governo do estado comprou 200 respiradores no dia 26 de março, pagando R$ 33 milhões antecipadamente pelos produtos. Segundo a administração estadual, a pressa era para tentar garantir a preparação da rede de saúde pública para o avanço do novo coronavírus.

Cada aparelho custou R$ 165 mil, valor pelo menos 65% mais caro do que os adquiridos pela União durante a pandemia. O primeiro e o segundo lotes deveriam ter chegado em 7 de abril e 30 de abril, respectivamente, o que ainda não ocorreu.

Em nota, a Veigamed informou que vai colaborar com a Justiça e que os esforços estão voltados a entregar os respiradores o mais rápido possível. Parte dos respiradores tem previsão de chegar ao Brasil ainda nesta terça (12) e devem ser entregues em Santa Catarina até quarta (13). A polícia está acompanhando o transporte e entrega da carga.

Qualidade dos aparelhos será analisada

Caso cheguem ao estado, os equipamentos serão inicialmente avaliados para saber se os modelos são compatíveis. Schneider afirma que o estado tem buscando pareceres imparciais sobre a validade e a serventia dos equipamentos. Se for constatado que os aparelhos podem ser usados, o delegado explica que será preciso uma devolução dos valores contratados por parte da empresa.

O delegado acredita que a empresa não tinha intenção de entregar o primeiro aparelho, o que realmente atendia às especificações do estado. Isso pois após a contratação do serviço, foi trocada a versão e tipo do respirador. E por isso a força-tarefa de investigação apura também a real serventia e qualidade dos equipamentos para o tratamento da Covid-19 quando os equipamentos chegarem.

“A diferença de um para o outro é grande em valores. O que deu errado? A entrega. Talvez se a entrega tivesse sido no prazo, iriamos apurar um sobrepreço, talvez com um delay maior da investigação. O que a gente conseguiu coletar de material probatório agora é porque os fatos vieram à tona. Talvez daqui a um ano, fosse verificar que essa contratação fosse feita de forma errada, ou daqui a seis meses, dois meses, enfim, e o tempo da investigação seria outro. Teriam sido entregues aparelhos que não eram adequados para a Covid-19”, disse.

Douglas Borba e Zeferino deixaram o cargo durante a polêmica dos respiradores — Foto: Mauricio Vieira/ Secom

Entre os investigados pela Polícia estão os ex-secretários Douglas Borba, da Casa Civil, que pediu exoneração no domingo (10) e Helton Zeferino, da Saúde, que já havia pedido pra sair da pasta em 30 de abril. Na segunda-feira (11), a Justiça retirou o sigilo da investigação da força-tarefa do Ministério Público (MPSC), da Polícia Civil e do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC). Uma CPI na Alesc também investiga a compra.

No dia 4 de abril, o estado admitiu “fragilidades” na aquisição dos respiradores e no mesmo dia, o secretário-adjunto da Saúde de Santa Catarina, André Motta, assumiu a pasta. Em depoimentos ao Gaeco, o ex-secretário Helton Zeferino falou que a Casa Civil teria pressionado para que a compra ocorresse, o que foi negado pelo chefe da pasta. Após ser ouvido na Operação O2, o secretário da Casa Civil Douglas Borba apresentou o pedido de exoneração.

Suspeita de contratação de “laranjas”

A empresa Veigamed, responsável pela aquisição dos respiradores, foi alvo da operação no Rio de Janeiro. Conforme o delegado, buscas foram feitas na casa de um homem que se apresenta como o CEO da empresa e de outra pessoa apontada como proprietária. Entretanto, segundo ele, com o andamento das investigações será possível saber quem é o real responsável pela empresa.

“Essa empresa parece que empresta o CNPJ para fazer esse tipo de atividade. […]. Ela nem poderia ter feito essa contratação do estado porque ela não estava autorizada a esses valores. […] Se seguirmos o caminho do dinheiro, bem possível que vamos chegar ao restante do dinheiro e também ao réu-proprietário, quem foi o último beneficiário dessa contratação com o estado”, afirmou.

O delegado da Deic afirmou que está sendo investigado se a organização já atuava antes da pandemia ou se aproveitou das contratações emergenciais feitas pelos estados. “Aproveitaram-se da fragilidade de Santa Catarina, pode ser que sim, pode ser que não. (…) o momento da pandemia parece o momento perfeito para o esquema agir com maior desenvoltura”,

Nomes envolvidos

Suspeita de Operação O2 é de várias pessoas envolvidas em possível fraude em compra de respiradores em SC — Foto: Reprodução

Além dos ex-secretário da Saúde, Helton Zeferino, e da Casa Civil, Douglas Borba, e de uma servidora que seria a responsável pela compra e exonerada do cargo comissionado, outra pessoas citada na investigação é Leandro Adriano de Barros, que, de acordo com as autoridades, é a pessoa de confiança do ex-secretário da Casa Civil, Douglas Borba.

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) chegou a solicitar a prisão dele, mas o pedido foi negado pela Justiça. Leandro é advogado da empresa contratada para a construção do hospital de campanha de Itajaí, cancelada após a Justiça suspender por duas vezes a contratação.

O delegado Rodrigo Schneider afirmou que a investigação apura o envolvimento com a contratação deste hospital, assim como de outros compras sob suspeita, que podem surgir após a análise dos materiais apreendidos.

“Chamou a atenção isso, como é que essa pessoa [Leandro] transitava [pelo governo]. Ela já ocupou um cargo, que, anteriormente, já foi da própria Márcia [servidora exonerada]. Ele já foi superintendente de gestão hospitalar, há cerca de alguns anos atrás, em 2015 e 2016, realmente isso é um fato que chamou a atenção da investigação”, disse o delegado. Por isso, a possível participação dele em outros processos de compra é investigado.

“Estamos avaliando a participação dessa pessoa especificamente em outros processos e o contato que essa pessoa tem com empresários do ramo da saúde e o que isso pode ter, de fato, prejudicado, o estado de Santa Catarina em contratações. Tudo isso está sendo averiguado, essa questão do hospital de campanha, temos uma questão de EPIs, de uma contratação que não ocorreu” explicou o delegado.

A defesa de Leandro Adriano de Barros informou em nota que ele jamais atuou em prol da Veigamed e que tem provas de que apresentou proposta de outra empresa com valores mais baixos. Disse ainda que tem relação profissional com Fábio Guasti (também citado) e que a investigação demonstrará seu não envolvimento no caso.

Schneider disse que, por enquanto, nenhum parlamentar catarinense foi citado durantes as investigações. Entretanto, há muito documentos e materiais apreendidos que ainda precisam passar por análise.

“Até o presente momento não há nada que indique que o governador tinha conhecimento [do esquema]. (…) Estamos avaliando documentos, se surgir o nome de algum agente político, será investigado”, afirmou o delegado. Na segunda-feira, o procurador do Estado também disse que por enquanto não havia sido constatada uma possível participação de Carlos Moisés no esquema.

Operação O2

No sábado (9), o Gaeco, a força-tarefa do MPSC, e a Polícia Civil cumpriram 35 mandados de busca e apreensão e sequestro de bens em Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso na Operação O2, que investiga a compra emergencial. O MPSC chegou a pedir a prisão temporária de oito pessoas que estariam envolvidas na compra dos respiradores, entre elas Douglas Borba, mas o pedido foi negado pela Justiça.

Na segunda-feira, o procurador-geral de Justiça de Santa Catarina, Fernando Comin, falou que há indícios da existência de uma organização criminosa que usava uma empresa de fachada e intermediava a venda de equipamentos para o poder público, com a facilitação de alguns agentes do governo no processo de compra.

Questionado sobre outras compras realizadas pelo governo catarinense que possam estar sob suspeita, o delegado Schneider afirmou que os materiais apreendidos ainda estão sendo analisados.

“Não com os mesmo atores nem com as mesmas empresas, mas não descartamos que isso possa ter ocorrido [com outras compras]. Mas ainda é cedo para poder afirmar isso”, disse.