As associações de triadores, ou recicladores, da Grande Florianópolis têm vivido dias difíceis desde o início da pandemia quando, por questões sanitárias, a coleta de recicláveis foi suspensa. Apenas em São José o serviço não sofreu interrupção, no entanto, as associações locais também sentiram a redução do trabalho e vivem momentos de dificuldades sem a renda mensal.
No bairro Sertão do Maruí, na área rural de São José, está localizado o galpão da Acareli (Associação Comunitária de Reciclagem) onde Maria Aparecida da Silva é a presidente. O sentimento dela diante da situação foi resumido em uma palavra: tristeza.
No galpão da Acareli trabalham normalmente 38 pessoas que triam, em média, 120 toneladas de resíduos por mês, segundo Aparecida. Desde o mês passado, a produção caiu drasticamente, mesmo a Ambiental – empresa que faz a coleta em São José – não ter parado a entrega dos resíduos. “Tem menos trabalho porque não estamos recebendo da Comcap. Eram uns três caminhões por dia e agora não tem mais nenhum”, disse.
O volume de material reduziu e com ele a renda dos associados. Na semana passada, os triadores trabalharam dois dias. “Como tem pouca coisa, a gente espera juntar bastante para que todos possam trabalhar e receber algum dinheiro”, explicou Aparecida. Mas esse ganho é insuficiente para todos. Pelo menos 10 pessoas foram afastadas por terem mais de 60 anos e estarem no grupo de risco da Covid-19.
Os associados contam com a solidariedade de uma empresa local que tem doado cestas básicas. “Se não fosse isso, nem sei como estaríamos agora. Comida temos, mas as contas estão ali, todas atrasadas”, afirmou Aparecida.

“Só nos resta esperar”
“A situação que já estava péssima piorou nas últimas semanas”, desabafa Eni de Melo Cascaes, presidente da Aresp (Associação de Recicladores Esperança), com galpão no bairro Monte Cristo, em Florianópolis. Com 18 associados, o trabalho foi suspenso no mês passado quando a Comcap (Autarquia de Melhoramentos da Capital) interrompeu, temporariamente, a coleta de recicláveis.
Na Aresp, a maioria dos associados é idosa, inclusive a presidente Eni, que tem 63 anos. A renda média mensal de um salário mínimo foi substituída por quase nada. Nos primeiros 15 dias, eles contaram com o recurso de um projeto realizado meses antes. Mas o caixa esvaziou e agora a manutenção das famílias vem de cestas básicas doadas pela Comcap e voluntários.
Eni comentou que não há muito a ser feito, pois sem material não há trabalho. “Só nos resta esperar e rezar para que não falte alimento. Ainda bem que não precisamos pagar aluguel, luz e água do galpão. É um problema a menos”, disse.
Teste de solidariedade
A Associação Pró-Crep (Criar, Reciclar, Educar e Preservar), na Baixada do Maciambu, em Palhoça, fechou o galpão no dia 18 de março, mas continuou recebendo material reciclável até o dia 20, quando o espaço lotou. “Estava muito arriscado e resolvemos parar, pois a maioria dos nossos colaboradores é do grupo de risco”, disse Ana Paula Wenddigen, da diretoria da associação.
A Pró-Crep realiza a coleta de recicláveis em dez bairros da região Sul do município e também recebe material da Samae (Secretaria Executiva de Saneamento), órgão da Prefeitura de Palhoça, que suspendeu o serviço.
Assim como ocorreu com as outras associações, a Pró-Crep ficou com o caixa zerado e contou com a comunidade local para não deixar os associados desamparados. A associação se uniu numa campanha com os postos de saúde da região que arrecadou 400 cestas de alimentos. Com essa ação foram atendidos também moradores da Baixada do Maciambu que não participam da associação, mas que também passavam por dificuldades. “É o momento de todos nos unirmos pela comunidade. Temos que ser solidários”, comentou Ana Paula.
Na semana passada, a Pró-Crep retomou a triagem dos recicláveis que chegaram mês passado ao galpão. “A boa notícia é que o material mais antigo não tem risco de ter o coronavírus. Dividimos dois grupos de seis pessoas que trabalham pela manhã e à tarde, cada um”, contou. Os triadores utilizam avental, máscara e luvas.
Ana Paula avaliou que ainda levará um tempo para o trabalho voltar ao normal, especialmente para a turma do grupo de risco. Por isso, a associação está planejando atividades que possam ser feitas em casa e gerem renda, como a produção de biodiesel e sabão.

Educação ambiental não parou
O Instituto Palhoça Menos Lixo suspendeu as ações de coleta de recicláveis temporariamente. O trabalho do instituto é voluntário e consiste de atividades pontuais, como mutirões em praias e margens de rios.
De acordo com o presidente Leonardo Quint, as orientações sobre o destino correto de resíduos continuam a ser divulgadas nas redes sociais da entidade. “Recebemos relatos diários pedindo orientação, auxílio a respeito de demandas relacionadas a meio ambiente, como realizar o descarte correto dos resíduos e denúncias. Vamos ter que readequar nosso calendário devido a essa parada”, explicou Quint.
Ecopontos da Comcap
A Comcap precisou suspender a coleta de recicláveis após os galpões de triadores terem fechado a porta devido a pandemia do novo coronavírus. “Não tínhamos como dar vazão a todo o material, por isso suspendemos”, disse o presidente da autarquia, Everson Mendes.
Foram mantidos pela Comcap os Ecopontos e os PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) de vidro. Nesses locais, a população pode levar os materiais que, posteriormente, serão encaminhados para a reciclagem. De acordo com Mendes, os pontos têm recebido um número significativo de resíduos. “A partir do momento em que cria a consciência sobre o destino correto do resíduo o cidadão não consegue mais regredir e jogar o reciclável no lixo comum”, opinou.
O presidente da Comcap ressaltou que o foco é a coleta convencional de lixo comum, que foi mantida nas 52 rotas da Capital. Os serviços de varrição e roçagem são feitos em locais pontuais de acordo com a demanda. A sanitização é realizada diariamente em cerca de 150 pontos de Florianópolis.
Samae pode retomar coleta no dia 4
Em Palhoça, a coleta de recicláveis feita pela Samae está suspensa há mais de um mês. A empresa municipal seguiu a orientação da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária) de suspensão que teve como base o período de sobrevivência do novo coronavírus nos materiais. Atualmente, apenas a Associação Pró-Crep é licenciada para a triagem e venda de recicláveis em Palhoça.
De acordo com a engenheira sanitarista da Samae, Denise Duarte Moro, a previsão é de que o serviço de coleta de recicláveis volte a atuar no dia 4 de maio.
Coleta dentro da média em São José
A Ambiental é a concessionária da coleta de resíduos orgânicos e recicláveis em São José. No mês passado, a empresa coletou 5.568 toneladas de lixo comum e 369 toneladas de recicláveis.
De acordo com o gerente regional da Ambiental em São José, Jairson José da Silva, o volume coletado está dentro da média. “A permanência das pessoas em casa não aumentou a coleta. Os restaurantes estavam fechados e não geraram lixo, mas as pessoas tiveram que cozinhar em suas casas”, comparou Jairson.
Jairson afirmou que o serviço não foi interrompido nenhum dia e que o material reciclável foi destinado a quatro associações do município. Nos bairros Kobrasol e Campinas a coleta é diária, de segunda a sábado, em alguns bairros ocorre duas vezes por semana e nas regiões mais próximas a área rural o caminhão passa uma vez por semana.
O gerente ressaltou que os funcionários da empresa utilizam máscaras e álcool como prevenção ao novo coronavírus e que os colaboradores do grupo de risco foram afastados do trabalho.
Dica de segurança
A máscara descartável não deve ser enviada para a reciclagem. Ela deve ser descartada no lixo comum para ser levada para o aterro sanitário. Isso evita uma possível contaminação de garis, catadores e triadores.




















