Com a finalidades de substituir materiais encontrados na natureza usados na indústria, como o marfim, e permitir produções em grande escala e mais baratas, o plástico totalmente sintético foi inventado em 1909.
A partir de 1930, diversos outros plásticos foram criados, como poliéster, náilon, teflon, silicone, entre outros, para atender a inúmeras demandas de mercado do século 20. Foi o caso da invenção do disco de vinil e da fita cassete, que revolucionaram o mercado fonográfico; e do PVC, que barateou os processos da construção civil, por exemplo.
No Brasil, assim como em diversas outras partes do mundo, a adoção do plástico na indústria moderna também barateou bens de consumo, alterando o estilo de vida sobretudo da classe média.
“Popularizado no Brasil na década de 1950, com o estabelecimento da indústria de resinas termoplásticas, o plástico passou a ser empregado em peças que antes utilizavam madeira, vidro, tecido, papel, etc., em especial em bens manufaturados, de uso pessoal e doméstico, como brinquedos, calçados, utensílios domésticos, embalagens”, explica Silvia Helena Zanirato, professora de Gestão Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) .
“Na década de 1950, o Brasil buscava uma imagem de país moderno, e os produtos fabricados com materiais plásticos foram tidos como mais práticos, modernos e acessíveis, ainda que menos duráveis”, afirma.
Os novos produtos plásticos de consumo dominavam a propaganda na televisão da época. “As empresas que patrocinavam programas apresentaram esses produtos como componentes de um novo estilo de vida, de uma nova sociedade que se voltava agora para o consumo”, aponta Zanirato.
Além dos inúmeros avanços, o plástico também trouxe diversos impactos ambientais. Apesar de muitos alertas sobre os efeitos sobre a natureza, a indústria do plástico ainda é uma das que mais crescem no mundo.
“Hoje, a produção mundial de plásticos está acima de 400 milhões de toneladas ao ano. Em termos comparativos, em 2012, a produção mundial era de 280 milhões de toneladas”, afirma Luciana Ziglio, doutora em Geografia Humana pela USP, citando dados da ONU.
“O Brasil acompanhou esse crescimento, produzindo, somente em 2017, 6,4 milhões de toneladas de plásticos”, compara a geógrafa. Atualmente, a indústria de transformação de plástico é um dos setores que mais emprega no país.
A fim de ilustrar como os benefícios do uso do plástico são relativos quando comparados aos estragos, o coordenador do Grupo de Estudos de Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP, Pedro Roberto Jacobi, chama atenção para a área da saúde.
Enquanto as resinas plásticas permitiram a criação de materiais hospitalares descartáveis, que reduzem os riscos de contaminação, o descarte irregular dos produtos plásticos ameaça a saúde pública.
“O acúmulo de resíduos plásticos nas cidades contribui para o aumento de enchentes urbanas, e eles servem de vetores de insetos e roedores, tendo reflexos tanto na degradação ambiental quanto na saúde pública”, explica Jacobi.
Segundo o coordenador, o maior problema relacionado ao plástico no Brasil está associado ao seu uso excessivo e desnecessário, como as embalagens plásticas de baixo custo e os canudos, e ao descarte inadequado, principalmente em córregos urbanos, rios e praias.
De acordo com a Fiocruz, água parada em pequenos reservatórios, como vasos de plantas, calhas entupidas, garrafas e lixo a céu aberto são um dos principais criadouros do Aedes Aegypti, mosquito transmissor da febre amarela, chicungunya, zika e dengue no meio urbano.
Reciclar, reutilizar e reduzir
Segundo Jacobi, a solução para o problema do uso do plástico no Brasil deve ser pensada a partir dos “3R”: reciclar, reutilizar e reduzir.
“Reduzir é o mais difícil, já que implica a criação de novos hábitos”, afirma o pesquisador. “Quanto mais os consumidores mudarem seus hábitos, menos o plástico, hoje usado como solução para todos os problemas, terá valia na nossa sociedade.”
A Ilha de Porto Belo, em Santa Catarina, foi uma das primeiras localidades do país a proibir canudos de plástico, em dezembro de 2016. Em julho de 2018, foi a vez dos estabelecimentos comerciais do Rio de Janeiro eliminarem o produto.
“Novos hábitos também começam a se multiplicar nas feiras de orgânicos e em algumas cadeias de supermercados que cobram pela sacola”, destaca Jacobi, afirmando, contudo, que essas ainda são mudanças muito pequenas e isoladas.
Além disso, a reciclagem do plástico ainda deixa a desejar no país. Segundo dados do Ibope de 2018, 75% dos brasileiros não separam materiais recicláveis, e 39% não separam sequer o lixo orgânico do inorgânico. Ainda segundo a pesquisa, 77% sabem que os plásticos são recicláveis, mas somente 40% têm essa consciência sobre as garrafas PET.
No mundo, dados do Ellen MacArthur Foundation de 2017, mostram que cerca de 8 milhões de toneladas de plástico são despejados nos oceanos anualmente. Se essa situação não mudar, em 2050, haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos. Pesquisas apontaram que cerca de 90% das aves marinhas têm plástico no seu organismo.
“Considerando que o Brasil tem a maior costa da América do Sul, o problema do lixo plástico nos oceanos deve ser uma das nossas principais preocupações”, afirma Ziglio. “É fundamental a ação do Estado na regulação e fiscalização da produção, assim como no descarte e reutilização do plástico no Brasil.”
Desde o início da produção em massa de plástico, na década de 1950, 8,3 bilhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo, das quais apenas 9% foram reciclados, segundo estudo publicado em dezembro passado na revista “Science”.
Fonte: Deutsche Welle