Na manhã desta segunda-feira (12), membros e amigos de Alcoólicos Anônimos (A.A.) ministraram palestra no Auditório Milton Figueiredo sobre a dependência provocada por bebida alcoólica – droga lícita e tolerada socialmente, embora diretamente relacionada a inúmeros casos de desestruturação familiar, criminalidade, acidentes de trânsito, entre tantas outras tragédias cotidianas.
Coordenada pelo “companheiro Zezinho” – anonimato é um dos princípios basilares da irmandade -, a audiência contou com a participação dos companheiros Antônio, Alcina e Celi, além do psicólogo Luís Antônio de Oliveira e do magistrado Mário Roberto Kono de Oliveira – estes, amigos de A. A.
Todos destacaram o alcoolismo tal é considerado pela Organização Mundial de Saúde, doença incurável, progressiva e muitas das vezes fatal – seja em consequência dos danos orgânicos provocados pelo uso abusivo da substância, seja por acidentes ou violência decorrente da alteração mental que o excesso do álcool causa.
Além do público que compareceu para assistir as palestras, também estiveram presentes jovens dependentes químicos em recuperação da Comunidade Terapêutica Recomeço.
CRIMINALIDADE
“Violência doméstica, ameaça, extorsão, furto familiar, dano, lesão corporal, homicídio, suicídio, crimes de trânsito e tantos outros estão diretamente associados ao consumo excessivo de bebida alcoólica”, pontuou o juiz Mário Kono, há quase vinte anos titular do Juizado Especial Criminal de Cuiabá.
Ele destacou a importância da irmandade Alcoólicos Anônimos enquanto parceira do Poder Judiciário, na perspectiva de evitar as penas restritivas de liberdade e buscar a recuperação dos doentes que a bebida alcoólica transformou em criminosos. Elogiou o trabalho e a metodologia de A.A. – até falou sobre a experiência pessoal: deixou de fumar orientado pelos “Doze Passos”.
O magistrado também lamentou a pouca estrutura para tratamento da doença, além da desestruturação familiar e social como fatores que favorecem o “alastramento” do alcoolismo.
“Na sociedade em que vivemos, a necessidade dos pais trabalharem sujeita as crianças e jovens à desatenção e daí a exposição deles ao álcool e, daí, às drogas ilícitas e à criminalidade”, pontuou Kono.
Na opinião do juiz, até a legislação – a “lei da palmada” – contribui para a desagregação e a perda de autoridade familiar. “Sou a favor da psicologia aplicada: o pai ensina uma vez, repete e, na terceira vez, aplica a psicologia na bunda; claro, sem excessos, maus-tratos, violência”.
Ele condenou a publicidade que vende a bebida alcoólica associada ao prazer – “é preciso proibir, assim como foi feito com o tabaco” – e defendeu políticas públicas voltadas à prevenção do mal.
“Os presídios estão lotados de traficantes, mas a droga continua aí; é preciso evitar que os jovens cheguem até o álcool e daí às drogas ilícitas, senão não vai haver presídio que chegue, nem pena de morte, a criminalidade só continuará a aumentar”, sentenciou.
SOFRIMENTO
Os companheiros Zezinho, Antônio, Alcina e Celi falaram sobre suas experiências pessoais – o sofrimento no alcoolismo, as esperanças e o recomeço na sobriedade em Alcoólicos Anônimos.
“Ao aceitar a nossa derrota total e completa, podemos evitar o sofrer no futuro; a cachaça me destruiu, mas A.A. me reconstruiu, me deu a oportunidade de recomeçar uma nova vida, hoje sou pai, avô, estou em paz, sou um homem feliz”, relatou o sexagenário Antonio, sóbrio há três décadas, depois de quase vinte anos de alcoolismo crônico. “As portas de A.A. estão abertas a quem tem o querer, o desejo verdadeiro de parar de beber; preocupamo-nos especialmente com os jovens: tenham cuidado para que o álcool não destrua o futuro de vocês”, advertiu.
Celi também relatou seus anos – desde a adolescência – perdidos na bebedeira. “Cheguei ao fundo de poço quer jamais imaginei, fecharam-se as portas, fui socialmente excluída, tinha vontade de morrer mas não tive coragem de me matar; quando reconheci minha impotência diante do álcool veio o desejo verdadeiro de parar, aí procurei A.A. e fui salva pela irmandade”, contou.
Alcina não é alcoólica, mas, casada com um alcoólatra inveterado, sofreu junto durante anos até conhecer Alanon – um braço de A.A. estendido para amigos e familiares que sofrem junto com os doentes, muitas das vezes até mais. “É preciso amor, compreensão; tratar o alcoólico como um ‘sem-vergonha’ só agrava o problema, é preciso entender que o alcoolismo é uma doença grave e procurar tratamento, recuperação para o doente e os que sofrem junto”, pontuou.
ESPERANÇA
O psicólogo Luís Antonio de Oliveira destacou a relevância do trabalho de Alcoólicos Anônimos em sua experiência profissional no tratamento de dependentes da bebida alcoólica.
“As portas abertas das salas de A.A. são as portas da esperança para tantos que sofrem a doença do alcoolismo; mais que isso, os princípios da irmandade conduzem à mudança comportamental”, assinalou. “Não é só parar de beber, é parar de ser hipócrita, parar de mentir, parar de manipular as pessoas; em A.A. encontramos pessoas verdadeiramente diferentes, sem ‘glamour’, sem vaidade, que buscam ser felizes e fazer os outros felizes”, acrescentou.
Após as palestras, o “companheiro Zezinho” – que nesta semana completa 37 anos de sobriedade em A.A. – destacou que o objetivo primordial da irmandade é levar a mensagem de fé e esperança ao alcoólico que ainda sofre.
Ele agradeceu a iniciativa do deputado Eduardo Botelho (PSB), vice-presidente da Assembleia Legislativa, que abriu as portas da Casa à irmandade. Em razão de compromissos institucionais, o parlamentar não pode comparecer.
As palavras finais foram um verdadeiro alento para todos os presentes.
“Desejo esperança, paz, saúde, amor, alegria, serenidade e sobriedade a todos”, encerrou Zezinho.
ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
Alcoólicos Anônimos é uma irmandade mundial de homens e mulheres que se ajudam mutuamente a permanecerem sóbrios. Eles oferecem a mesma ajuda a qualquer um que tenha um problema com a bebida e queira para de beber. Por serem todos alcoólicos, eles tem uma compreensão mutua especial. Sabem como essa doença os atinge – e aprenderam como se recuperar do alcoolismo dentro de A.A.
Os membros de A.A. dizem que hoje são alcoólicos – mesmo que não bebam há anos. Eles não dizem que estão “curados”. Uma vez que a pessoa tenha perdido a possibilidade de controlar a bebida, nunca mais é possível beber controladamente – ou, em outras palavras, ele nunca pode tornar-se um “antigo alcoólico” ou um “ex-alcoólico”. Mas em A.A. ele pode tornar*se um alcoólico sóbrio, um alcoólico em recuperação.
Em Mato Grosso há mais de 50 grupos de A.A.
Informações podem ser obtidas por meio do Escritório de Serviços Locais (ESL), sito à rua Antônio Maria, 130 – Ed. Anna Paula – 1º Andar – Sala 10 – Centro – CEP: 78.005-420 – Cuiabá – MT. Fones: (65) 3321-1020 e (65) ) 9699-9554. E-mail: esl@aamt.org.br.

















